Eram mais ou menos três da tarde, de um dia mais ou menos cinza, de um fim de semana mais ou menos livre . Enquanto caminhava pela casa tentando colocar alguma ordem na vida, ela tropeçou numa pequena caixa de madeira caída no canto da parede rosa. Passaporte, carteira de trabalho, um pequena coleção de retratos 3x4 de amigos sortidos e bem debaixo de seu pé esquerdo, uma chave. Ela pegou o objeto e pensou em suas últimas casas e nas penúltimas e nas anti-penúltimas e em todas aquelas das quais se lembrava haver possuído chaves. Tinha um formato estranho, de uma grande fechadura, provavelmente pertencia à alguma grande porta, de alguma grande casa. Pensava enquanto limpava a película grudenta que impedia a leitura das inscrições. Chicletes... Certamente aquela chave era dela. Precisava parar com a mania de deixar chicletes velhos no bolso dos casacos. Uma raspada mais e ... hebraico!
Já não havia mais albergues na cidade, nada que pudessem pagar. Após várias visitas a telhados lotados de pessoas como eles, desistiram de encontrar um espaço para esticar seus sacos de dormir. Era vinte e quatro, de um dezembro mais ou menos calmo, quase meia noite. Aquela altura já pensavam em que parte da cidade velha deveriam recostar-se quando nocauteados pelo sono. Temiam por sua segurança. Os soldados nos telhados de Belém os havia assustado, assim como a multidão que se aglomerava na porta da Natividade. Tinham resolvido continuar viagem, mas foi inútil. Era quase Natal e seguiam se assustando com cada saco de papel mais ou menos embolado perto de qualquer sarjeta, esquina, ou muro. Do das Lamentações então, tantas vezes destruído, resolveram se afastar e ao atravessarem os detectores de metal que contornam o sincrético muro, avistaram o mais bizarro de todos os personagens.
Empurrava uma cadeira de rodas na qual um cachorro viajava confortavelmente instalado. Era corcunda. Cabelos desgradanhos. Excessivamente magro. Se apoiava na cadeira para caminhar e um pedaço de pano unia seu punho esquerdo à coleira do cão. Aproximou-se deles. Perguntou se gostariam de acompanhá-lo. Tinha uma oferta. Não havia albergue na cidade. Nada que pudessem pagar. Tomou a dianteira e caminhou resoluto rumo ao beco. Na rua estreita, uma porta, outra porta, outra porta, outra porta, outra porta, um pátio. Pé direito alto, paredes brancas, uma fonte de mosaico no meio. Um corredor, e uma porta, outra porta, uma sala, um quarto, outro quarto, um banheiro, uma cozinha, um corredor, outra porta, outra porta e um enorme quarto. Duas janelas e pés, muitos pés que passavam apressados diante da treliça que separava a janela da rua: inexplicavelmente haviam ido parar no piso inferior. Ali deixaram suas mochilas. Era quase natal e ele os esperava no andar de cima com três taças de vinho. Não se rejeita vinho, ainda mais no natal, sussurou ela, mas confessou achar estranho que fossem servidas à beira da cama de um senhor corcunda, magro, desgrenhado e adepto de enigmas. Ele lhes propôs três enigmas. Ele acertou dois. Inexplicavelmente se lembrara dos enigmas e de haver estado ali mais ou menos na mesma situação, mais ou menos um ano antes. A moral da história era que não deveriam julgá-lo pelas aparências. Havia contado a ela sobre os enigmas e pasmos com o déjà-vu beberam o vinho e saíram a beber o natal. Na volta, uma porta, outra porta, outra porta, ou será essa outra? Perderam-se, acharam-se e deitaram-se debaixo das treliças das janelas dos pés passantes.
Dormiram. Os pés já não passavam e ela acordou apertada: precisava ir ao banheiro. Olhou pra ele. Ele dormia. Enrolou-se no casaco e passou pela porta, outra porta, outra porta, corredor, quarto, quarto, sala, banheiro. Entrou no banheiro e quando acendeu a luz, lá estava ele: corcunda, magro, desgrenhado, de roupão, sem a cadeira de rodas e sem o cachorro. Ele fechou a porta. Ela gritou. Ele veio correndo. Os três olharam-se e tacitamente decidiram que não havia nada de estranho naquilo. Ele saiu do banheiro. Ela fez xixi sob a guarda atenta do namorado. Ele a levou pro quarto. Ela trancou a porta e pôs a chave no bolso do casaco. Amanheceu e os pés passantes voltaram a passar. Passavam cada vez rápido e cada vez mais muitos. Era mais ou menos tarde e o quarto ainda estava mais ou menos escuro. Dobraram mais ou menos seus sacos de dormir e procuraram a chave. Não estava na porta. Seriam eles prisioneiros? Se olharam e se lembraram das histórias de escravas brancas e de pessoas desaparecidas no deserto e de João e Maria presos pela bruxa atrás de uma porta de treliça. Haviam se assustado com os soldados nos telhados de Belém e seguiam se assustando. Agora com o velho corcunda, magro, desgrenhado que não deveriam julgar pela aparência. Ela gritou. Ninguém ouviu. Os pés passantes apenas passavam. Ela colocou o dedinho para fora da treliça. Apavorada se lembrou de todas as histórias que havia escutado e se convenceu de que seria vendida para algum bordel do deserto entre Israel e Egito. Ele riu, mas inexplicavelmete sabia que ela poderia estar certa. Ele vasculhou o quarto enorme e encontrou no fundo do armário uma caixa. Na caixa, uma chave grande com inscrições em hebraico. Ele abriu a porta e eles atravessaram o corredor e uma porta, outra porta, outra porta, outro corredor, quarto, quarto, sala, banheiro. Era 25, de um dezembro mais ou menos calmo. Ela entregou a ele o dinheiro. Ele devolveu. Haviam ganhado uma noite pelo acerto dos dois enigmas. Ele propôs um novo enigma. Ela teria agradecido se já não estivesse no meio beco, depois daquela porta, ou da seguinte. Ele devolveu a chave e agradeceu por ambos. Não deveriam julgá-lo pelos aparências. Mais tarde, enquanto comia um faláfel de um shekalim ela enfiou a mão no bolso. A chave. Enrolada numa película grudenta que impedia a leitura das inscrições. Chicletes... precisava parar com a mania de deixar chicletes velhos nos bolsos dos casacos.
Eram mais ou menos três e quarenta e cinco. Ela guardou a chave na caixa, no canto da parede rosa, e saiu para almoçar.
29.5.07
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